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O LEÃO DO NORTE: A relevante contribuição de Pernambuco para a formação da história nacional



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O desafio de todos os intelectuais na formação da história nacional do Brasil era o de articular as diversas tradições locais nessa identidade coletiva, a nacionalidade brasileira. Mas, por outro lado, as elites provinciais e seus intelectuais também estiveram preocupados em destacar as especificidades locais, de forma a garantir-lhes a manutenção e a legitimação de seus poderes e privilégios. Desta forma, em 1862, foi criado o segundo instituto histórico do Brasil e primeiro das províncias do norte, o Instituto Archeológico e Geographico Pernambucano, que tinha basicamente dois objetivos: a recuperação da história pátria e a comprovação da participação de Pernambuco (leia-se, de suas elites) na formação do país.

A data da fundação não poderia ser mais significativa, 27 de janeiro, dia do aniversário da Restauração Pernambucana, o eixo formador da identidade provincial como afirmam GUIMARÃES (1996) e MELLO (1997). Episódio que, ao sabor das necessidades de cada momento, sempre fora a maior referência para a identidade coletiva das elites locais, assentada nos princípios de que, ele fora o primeiro momento em que o nativismo pernambucano se manifestara e, em segundo lugar, porque a defesa de Pernambuco, que fora a defesa da permanência de seu vínculo com a metrópole portuguesa, se fizera “às custas das vidas, sangue e fazendas” da nobreza da terra, inclusive, e a despeito da falta de apoio do rei de Portugal e de seus representantes na colônia, leia-se, o governo geral.

Um dos aspectos mais ressaltados pelos estudiosos é o fato de que a produção do IAGP, ao contrário do IHGB que definia que a produzida por seus sócios era a história nacional, foi a sua dedicação à escrita de uma história local que, no entanto, acabava por incluir as de outras capitanias/províncias, seja porque tivessem, em algum momento do passado colonial, sido anexas à capitania de Pernambuco (caso da Paraíba), ou porque os eventos lá ocorridos repercutiram além das suas fronteiras, a exemplo da Restauração contra os holandeses e da Revolução de 1817. Outros temas recorrentes nas revistas do IAGP foram o da religiosidade e o do patriotismo, este amplamente associado ao nativismo; aliás, os atributos de valentia, patriotismo e abnegação, são as marcas da constituição dessa identidade pernambucana. Em seus trabalhos a província se constrói, desde o período colonial, como a vanguarda da liberdade nacional.

O tema do nativismo foi central na produção historiográfica do IAGP no século XIX. O sentimento nativista era bastante forte e a relevância da história pernambucana era, para seus membros e dirigentes, um amálgama para o destino da história do país, pois Pernambuco sempre participara ativamente do vários conflitos coloniais desde a sua criação e deveria ser um exemplo para o resto do país. O amor pelo território e pelo povo era, para os membros deste Instituto, elemento imprescindível na institucionalização da cultura histórica nativista. Evaldo Cabral de Mello (1997, p.107), retomando o lema da açucarocracia da Capitania de Pernambuco que havia lutado contra os holandeses na guerra da restauração, “à custa de nosso sangue, vidas e fazendas”, aprofunda a discussão sobre a cultura histórica do nativismo, apresentando uma cronologia que nos ajuda a compreender como se construiu essa idéia forte da historiografia produzida pelo IAGP.
Nesta obra, em que também se debruça sobre o projeto historiográfico do IAGP,  Mello dá grande destaque à prioridade que foi dada ao período holandês como eixo dos debates para sustentar as teses do nativismo pernambucano.  

Assim como no seu congênere, o IHGB, no Instituto Pernambucano, as revistas também mereceram grande relevo, porque institucionalizaram suas produções embasadas nas discussões que propunham a personificação de Pernambuco como província que possuía sua própria história. Os sócios fundadores do IAGP eram pertencentes, basicamente, a uma elite intelectual de grande poderio econômico na região, diretamente ligada ao latifúndio açucareiro, e por membros da igreja e alguns profissionais liberais (a exemplo de Maximiano Lopes Machado). Logo nos seus primórdios, teve como presidente interino um importante fazendeiro local, Joaquim Pires Machado Portella.

De início, a manutenção da entidade ficou a cargo dos próprios sócios, além dos recursos oriundos da venda das revistas. Só em 1866, na medida em que seu trabalho foi sendo reconhecido, o governo da Província faria uma subvenção anual de 1.200$000. Apesar de novos esforços para que esta subvenção tivesse uma regularidade, foi de maneira paulatina que isto foi ocorrendo no IAGP.

A competência científica não era o único requisito para se pertencer aos quadros do órgão; apenas era necessário que algum dos sócios indicasse formalmente alguma pessoa. Esta foi uma especificidade deste Instituto, já que os demais, tanto o brasileiro quanto os que foram se formando mais tarde, tinham por praxe, para ingresso no quadro de sócios, a exigência de apresentação de algum trabalho acadêmico.Tratava-se de uma sociedade em que os critérios relacionais, como afirma Lília Schwarcz (1993, p.118-119), eram claramente os definidores do ingresso.

Um fato curioso no grêmio pernambucano está na sua nomenclatura como Instituto “Arqueológico”. Arqueologia entendida como a matéria que versava sobre antiguidades, mas, de fato, não havia grande interesse pelo tema, até porque, como já referimos, à época de sua criação a história colonial nativista encobria quaisquer outras discussões e “os artigos notadamente arqueológicos, concernentes à pré-história brasileira, correspondiam a apenas 2% do total de textos classificados” (idem, p.119).
 
É importante que se diga, seguindo a argumentação de Eduardo Guimarães que, por mais que o IAGP tivesse sido criado para, como diz Schwarcz (idem, p.118), responder às aspirações políticas e culturais da elite pernambucana, que lutava para manter a sua hegemonia ao menos no norte do país, já que, desde a independência seu poder político e econômico fora reduzido, os membros do Instituto estavam longe de defender a causa federalista ou a causa separatista.

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