Fatos históricos, políticos, econômicos e sociais. A História, relida e recontada.

O Instituto Histórico e Geográfico Paraibano e suas contribuições para a História


 

Em outro período histórico, o republicano, nasceria o Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, mais precisamente em 07 de setembro de 1905, sob a égide de uma comissão que se formou para programar as comemorações da independência. Seu objetivo foi, desde o início, empreender uma história da Paraíba assentada na identificação de um passado comum e de características próprias da terra, ou seja, tratava-se de realizar um empreendimento semelhante àquele de Varnhagen e do IHGB para o Brasil e do IAHGP para Pernambuco. Empreendimento este que também teria seu ponto inicial localizado no passado colonial. Emblematicamente, o discurso de saudação pela fundação do Instituto, pronunciado por João Pereira de Castro Pinto, um de seus sócios-fundadores, teve por título “A História Colonial da Paraíba”.

Além dos sócios-fundadores, já em 1907, o IHGP contava com a participação de cerca de uma centena de sócios-correspondentes dentre os quais podemos mencionar nomes importantes da intelectualidade brasileira daquela época, a exemplo de Alfredo de Carvalho, João Capistrano de Abreu, Manoel de Oliveira Lima, José Veríssimo, Affonso Scragnole Taunay, Sylvio Romero, entre outros.

Dois anos mais tarde, em 1909, foi aprovada a Lei n.317, de 22 de outubro, proposta pelo deputado Rodrigues de Carvalho, sócio do Instituto, que considerou o IHGP entidade de utilidade pública. A mesma foi sancionada pelo presidente João Lopes Machado, também sócio da agremiação.

Como é possível perceber no transcorrer destes primeiros anos de sua fundação, o IHGP esteve organicamente vinculado às esferas políticas e administrativas do estado. A própria fundação, aliás, correspondera aos novos interesses das elites locais derivados das modificações introduzidas pelo regime republicano instaurado dezesseis anos antes.

Compreender esse quadro é importante para situar não só a criação do IHGP, mas inclusive, o processo de organização da instrução pública como um todo, pois ambos foram influenciados pela disputa, a nível regional e também nacional, em torno da questão da autonomia político-administrativa dos estados e, internamente, pela correlação de forças entre os diferentes grupos oligárquicos que, como já vimos, ao tratar da biografia de Irineu Pinto, correspondeu, na prática, à manutenção no poder daqueles que conseguiram reunir o maior número de parentelas em torno de sua proposta. A questão da autonomia político-administrativa e a questão do controle do poder político local, por sua vez, vinculavam-se intimamente à da política orçamentária e, portanto, à definição do que seria objeto de investimento por parte do poder público. Pinheiro (2002) faz um alentado estudo na tentativa de compreender o impacto desta discussão sobre a instrução pública em geral na Paraíba tanto no período imperial quanto na fase da República Velha. 

Quanto à fundação do IHGP é bom relembrar que um dos seus mais entusiasmados defensores foi o presidente do Estado, Álvaro Machado, militar e professor da Escola Militar do Rio de Janeiro, nomeado por indicação de Floriano Peixoto. Também é importante reafirmar que essa fundação deve ser compreendida como parte do esforço em construir a nacionalidade republicana brasileira, mas também, e fundamentalmente, forjar uma identidade local, a que Dias (1996) chamou “paraibanidade”, capaz de vincular a Paraíba ao ideal republicano. É a partir desta proposta que a autora realizará a sua análise dos objetivos e do papel do IHGP, no que foi publicado nos primeiros anos de existência da revista da instituição. Importante também é destacar, como faz Pinheiro, que o esforço do IHGP fazia parte do projeto maior que entendia a educação como a ação fundamental para atingir o progresso. Aliás, é importante lembrar que grande parte dos seus membros, por exemplo, participaram ativamente do processo de estruturação da instrução pública na Paraíba, como membros de comissões que propuseram reformas, como gestores órgãos responsáveis pelo setor, como autores de compêndios escolares, dentre outras atividades (PINHEIRO, 2002, p.234).

Produzir a história local era, portanto, produzir verdades que deveriam servir para a instrução do povo. Verdades que deveriam ressaltar as características que faziam do paraibano parte específica, mas integrada ao povo brasileiro.            E que idéias seriam essas? O que seria a paraibanidade? O estudo de Dias (1996) continua a ser a referência mais importante para essa discussão. A autora identifica, nos artigos publicados nos primeiros anos da revista do IHGP, os eixos centrais da fundação dessa idéia de que o nascido na Paraíba seria marcado pelas seguintes qualidades: a vocação para a paz (expressa no ato de fundação da capitania, em 1585, com o acordo firmado entre os Tabajara, na pessoa de Piragibe, e os portugueses, na pessoa de João Tavares); sua força, sua intrepidez e sua coragem (inúmeras vezes demonstradas em episódios como a resistência aos ataques dos holandeses até a capitulação de 1635, ou a participação de seus filhos, em especial, André Vidal de Negreiros, na luta pela restauração do domínio português nas capitanias do norte) e, fundamental no período em que o IHGP foi fundado, sua vocação republicana (expressa na participação dos homens da terra na Revolução de 1817, na Confederação do Equador, em 1824 e na Revolta Praieira em 1848-50, o que demonstraria que a Paraíba sempre esteve ao lado dos liberais, e dos liberais radicais, que lutavam pela implantação do regime republicano desde o início do século XIX).

Outros estudos caminharam na mesma direção, a exemplo do de Gonçalves (2007) que, estudando a formação da elite local no período colonial e identificando os vínculos estreitos entre ela e a de Pernambuco, o que faz de uma a extensão da outra que já estava enraizada naquela Capitania de donatário desde os anos 1530, procura ressaltar como o esforço da produção historiográfica do IHGP, ocorrida em contexto histórico bastante específico, procurava eliminar esta vinculação.

Embora, como nos alertam ambas as autoras, a crítica dessa historiografia ainda precise ser aprofundada, e o nosso trabalho pretende ser uma contribuição nesse sentido, a sua permanência e influência nos dias atuais são inquestionáveis; ela ocupa papel central na divulgação da história, em especial nas escolas e nos materiais didáticos e se constitui, também, como ponto de partida para a maior parte dos estudos sobre a Paraíba, em especial quanto ao período colonial e ao período imperial. Se não foram poucos em números absolutos, se tomarmos em consideração os nomes de todos aqueles que assinaram a ata da sessão que fundou o Instituto, alguns foram fundamentais para o estabelecimento daquilo que seria o modelo da historiografia paraibana até muito recentemente.
 
Alguns anos depois, com as publicações das obras de Maximiano Machado e de Irineu Pinto, e com a veiculação de artigos dos sócios tanto na revista quanto na imprensa local, essa situação mudaria. Estavam lançadas as bases a partir das quais a história da Paraíba passaria a ser produzida, ensinada, estudada e aprendida até os dias de hoje, como já dissemos. Uma tradição historiográfica que ainda garante ao IHGP o posto de entidade cultural mais antiga e influente na sociedade paraibana. Isso sem falar no suporte físico que ele garante aos pesquisadores, pois seu acervo é extremamente representativo. Em balanço realizado no ano de 1998, o Presidente do IHGP, Luiz Hugo Guimarães informava que, àquela época, este acervo era formado por cerca de 30 mil publicações e 32 mil documentos, higienizados e acomodados adequadamente na biblioteca, na mapoteca, na hemeroteca e no arquivo da instituição (1998, p.11).

1 comentários:

Tecnologia do Blogger.