Fatos históricos, políticos, econômicos e sociais. A História, relida e recontada.

Considerações históricas sobre o Lugar da Historiografia



O termo “historiografia” tem uma longa carreira, desde o seu sentido mais antigo quando era associado às longas listagens de obras de história e seus autores, até o presente, quando o estudo historiográfico passou a ser considerado como “o estudo da história dos escritos, métodos e as respectivas controvérsias” (SILVA, 2001, p.26), devendo, portanto, ser considerado como parte da história da história.

Até o século XVIII, os estudos historiográficos estavam baseados em listas de títulos e autores organizadas por ordem cronológica segundo as publicações. Ocorre que a concepção moderna de historiografia, resultado de um amplo processo de acúmulo de pesquisas e contribuições, ultrapassou esta visão. O trabalho dos historiadores foi, desde então, se constituindo e sendo pensado, em diferentes momentos, como reconstruções/discursos/ explicações da realidade. No entanto, e apesar dessas transformações, o papel da historiografia parece ter uma base comum se o compreendemos como Arruda e Tengarrinha (1999) cabe à historiografia não uma reflexão sobre a história, enquanto conjunto da produção humana, mas, fundamentalmente, sobre o conhecimento histórico, ou seja, a reflexão sobre a produção dos historiadores ou, em termos correntes, sobre as obras históricas... a abordagem historiográfica, (...) busca a compreensão da história através das obras históricas, das visões ou teorias que as orientaram ou circunstanciaram (1999, p.11-12).  

A construção de uma história da historiografia tem sido objeto de inumeráveis estudos recentes, no Brasil e no exterior, como os de Rogério Forastieri da Silva (2001), H. W. Blanke (2006), entre outros, que se dedicam à pesquisa acerca dos propósitos, dos empenhos historiográficos, dos tipos e das funções dessa história da história, ou seja, tratam da historiografia em geral, bem como da sua diversidade e dos múltiplos enfoques que lhe são aplicados. 

Blanke, por exemplo, aponta um tipo desta história da historiografia que é bem interessante, a “história dos historiadores”, afirmando que o retrato pessoal de cada historiador é fundamental para descrever um outro tipo que ele considera salutar, “a história das obras”, ou seja “a história da matéria é contada como a história de um gênero literário particular” (In: MALERBA, 2006, p.30). Outras possibilidades seriam a construção da “história social dos historiadores”, da história da historiografia como história social e, por fim, da história da historiografia teoricamente orientada, que seria uma tentativa de entender como a disciplina se desenvolve no interior de uma discussão metateórica, que é uma análise mais complexa “e que pode localizar e resgatar projetos fracassados” (In: MALERBA, 2006, p.32). É indispensável, segundo ele, a investigação dos modelos tradicionais para operar a crítica, ou seja, buscar fundamentos que dêem sustentação ao que os historiadores se dedicaram a escrever, e consequentemente, criticar. Entender as ideologias é outro aspecto importante para a apreensão de como se dá a reconstrução histórica. Enfim, a historiografia seria “a história do discurso - um discurso escrito e que se afirme verdadeiro - que os homens têm sustentado sobre seu passado” (CARBONELL, 1981, p.6)
Segundo Silva (2001) os estudos de Eduard Fueter constituíram-se como o trabalho pioneiro desta área. Ele se propunha a analisar os historiadores e suas obras a partir da construção do Estado Nacional, usando vários critérios de periodização da história da historiografia e trabalhando com a história intelectual ou das idéias. Embora se voltasse aos modelos assentados na construção de longas listagens, tratava-se de um estudo pioneiro. Benedetto Croce, contemporâneo de Fueter, tentou fazer uma distinção entre história e historiografia. Croce defende a tese de que a “construção de uma sociedade em torno de um Estado, para além de seus aspectos materiais, se faz também por intermédio de seus intelectuais” (SILVA, 2001, p. 61). 
No que se refere aos métodos para a operação da história da historiografia Mastrogregori nos apresenta uma diversidade deles que vão desde o método bibliográfico, até o mais erudito (mais rebuscado), filosófico, científico. Segundo ele, a história da história seria uma “tradição das lembranças”, ou seja, uma tentativa de reconstrução da história, a partir de critérios que se fundamentam naquilo que o(s) autor(es) se dedicam a estudar, e consequentemente, a escrever.  A história da história, tida como uma perspectiva da “tradição das lembranças” é, para Mastrogregori, a tentativa de estudar os textos de história como elementos de um desenvolvimento histórico mais geral, amplo e variado, em que as atividades de diferente natureza também desempenhassem um papel: a isso eu chamaria, justamente, de tradição das lembranças (In: MALERBA, 2006, p.68).

Rogério Forastieri da Silva (2001) faz uma análise sobre os estudos historiográficos gerais, do passado até às questões mais atuais, destacando desde os seus propósitos, sua diversidade, seus empenhos, os seus múltiplos enfoques até a sua consolidação. É a partir da tipologia apresentada por este autor que situamos nossa proposta de análise historiográfica, dentre aquelas que têm como alvo um autor e o conjunto de suas obras, ou uma comparação entre autores e algumas de suas respectivas obras, que pode ter por interesse investigar, por exemplo, a forma ou estilo de escrita, ou a forma que os autores objeto de comparação vieram a tratar de determinados temas ou dentro de um mesmo período da história da historiografia comparar autores (2001, p. 22). 

Enfim, adotamos a perspectiva que considera a historiografia como produto de um tempo. Produto esse que, ao ser analisado, revela não apenas os procedimentos da operação realizada pelos historiadores que o produziram, mas também revela a sociedade em que tais historiadores viviam. Portanto, consideramos que há, na obra dos historiadores, uma relação estabelecida com a “verdade” possível sobre uma sociedade, em um tempo passado determinado.  Por esta razão, reafirmamos a posição de Carbonell: “a historiografia é um produto da história e revela com clareza a sociedade que a gerou” (apud MALERBA, 2006, p.21). 

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