Fatos históricos, políticos, econômicos e sociais. A História, relida e recontada.

O saber didático nos livros didáticos de História e a História Cultural



Compreendemos que entender OS processos de institucionalização do saber histórico elaborado e disseminado através de autores vinculados aos Institutos Históricos, inclusive através de livros didáticos, é uma das tarefas da história cultural. Tal como Chartier entendemos que ela “tem por principal objeto identificar o modo como em diferentes lugares e momentos uma determinada realidade social é construída, pensada, dada a ler” (2002, p.16-17). E, como já apresentamos em artigos passados autores que tiveram vínculos com tais institutos, com os  livros didáticos, e tendo em vista que o norte das suas idéias e práticas veio do IHGB, fazer tais articulações é tarefa fundamental.

Cabe aqui, ainda, uma consideração acerca do lugar que o compêndio escolar, inclusive em sua versão mais moderna, o livro didático, ocupa na conformação e disseminação, ou melhor, na institucionalização, de uma determinada cultura histórica, o que justifica a opção que fazemos por tratar deste tema nesta dissertação.

Le Goff (1992, p.48 e p.75-76) sustenta a hipótese de que os compêndios escolares são os melhores pontos de observação para o estudo da cultura histórica de uma época e destaca que o problema é que eles só passam a existir depois do século XIX. Embora os tome exclusivamente como fonte para esse estudo, e nesse sentido não esteja preocupado com o papel do ensino de História e particularmente dos livros didáticos na disseminação de tal cultura, o autor aborda outros aspectos que nos permitem estabelecer conexões com nosso tema. Um deles diz respeito à dificuldade de se falar na existência de apenas uma cultura histórica – que ele compreende como “a relação que uma sociedade, na sua psicologia coletiva, mantêm com o seu passado” (1992, p.47-48) -, tendo em vista a pluralidade de construções e reconstruções possíveis desse mesmo passado em cada sociedade. No entanto, o autor resolve a questão, embora também chame a atenção para o fato de que esse procedimento não seja exatamente seguro, afirmando que, sejam quais forem as diferenças, é possível mapear o que a “opinião pública”, tomada como “opinião coletiva”, tem como sendo este passado. Algo que, ainda segundo ele, cabe aos historiadores interpretar.

Pensamos que seja possível estabelecer uma conexão entre esta leitura de Le Goff e a de Ferro, em livro publicado quase dez anos antes.Perseguindo este objetivo, Ferro passa a analisar, neste livro já clássico, casos de ensino de História, através de vários veículos, inclusive livros didáticos, em treze países dos cinco continentes.
 
Podemos inferir que aquilo que Le Goff chama de “psicologia coletiva” ou “opinião pública” de uma sociedade sobre seu passado, é quase a mesma coisa que Ferro define como sendo a “consciência coletiva”. Ambos parecem concordar com a idéia de que há um ponto de vista hegemônico sobre o passado que pode ser identificado em cada sociedade, e que é traduzido por Ferro como “matriz dominante da História” (ou história oficial) e, por Le Goff, como cultura histórica. Para o que nos interessa, neste momento, importa reter o lugar que ambos reservam ao livro didático como veículo a partir do qual se torna possível compreender tal fenômeno. Ferro, inclusive, apoiado na afirmação croceana de que “a História coloca mais os problemas do seu tempo do que os da época que se propõe a estudar” (1983, p.12-13), aprofunda a discussão sobre como o ensino de História e o livro didático podem ser instrumentos de controle do passado para o domínio e legitimação do presente.

O ensino de História e o manual didático ainda são indispensáveis em nossa sociedade para se atingir o objetivo da vulgarização do conhecimento histórico, em que pese o alcance cada vez mais significativo das mass-media e outros veículos neste setor. Ou, como afirma Gimeno Sacristán (apud MUNAKATA, 2007, p.138), os livros didáticos, como “instrumentos culturais de primeira ordem”, ao lado dos meios de comunicação de massa, constroem uma “base para a criação de um consenso cultural mínimo que assegure a vertebração social”, “a integração da comunidade”.
 
Compreendemos, assim como estes autores, a importância dos livros didáticos e procuraremos demonstrar como, nos casos que já escrevemos, eles têm sido veículos importantes de uma determinada cultura histórica, aquela produzida no seio dos Institutos Históricos, que se tornou hegemônica na sociedade paraibana desde as obras de Maximiano Machado e Irineu Ferreira Pinto, produzidas entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Cultura histórica essa marcada por pressupostos que as autoras dos livros didáticos que analisamos se encarregaram de reproduzir, especialmente quanto ao tratamento dado ao período holandês. Procuramos demonstrar, também, que os materiais em estudo expressam ainda as condições históricas da época em que foram elaborados, bem como o alinhamento político e teórico das autoras naquele momento marcado pela ditadura militar no Brasil e pelo lugar reservado à História pelo regime, o que pode ser percebido, inclusive, a partir da análise das reformas educacionais que então se processaram. A afirmação de Ernest Lavisse de que o papel do ensino de História deveria ser o de inculcar nos alunos valores que os levassem a “amar e compreender a Pátria” (apud Le Goff, 1992, p.75-76) parece aplicar-se perfeitamente ao que o país vivia naquele momento.

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