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O Brasil criado por Varnhagen: A história da história nacional


 

Para cumprir o objetivo de se “fundar” a história nacional em algum lugar do passado colonial, em 1840 instituiu-se, sob os auspícios da monarquia, um prêmio para quem elaborasse o melhor plano de trabalho para a escrita da história do Brasil. O texto do naturalista alemão e sócio correspondente do Instituto, Carl Friedrich Philipe von Martius, foi premiado em 1847 e tinha, como idéia central, demonstrar que a nação brasileira derivava da mescla das três raças: a indígena, considerada redimível, deveria merecer estudos cuidadosos com o objetivo de ser integrada à história nacional; a branca, elemento civilizador que deveria ter sua atuação destacada; e a negra à qual Martius deu pouca atenção, vendo-a como impossibilitada de adaptação, como “fator de impedimento ao processo de civilização” (MARTIUS apud DIEHL, 1998, p.35). O projeto da primeira história do Brasil foi feito por Martius, mas coube a Francisco Adolpho de Varnhagen executá-lo.

Segundo Odália, ele deve ser considerado o fundador de uma corrente historiográfica brasileira, ainda hoje atuante, na medida mesmo em que em Varnhagen o pensamento burguês brasileiro encontrou o espírito que, embora falto de imaginação, conseguiu realizar uma síntese admirável dos ideais e objetivos das classes dirigentes que tomaram a seu cargo a construção da Nação ( 1997, p. 24).

A partir de 1841, quando teve a nacionalidade brasileira reconhecida, pode ingressar nos vários serviços diplomáticos brasileiros, o que facilitou o desenvolvimento de suas qualidades de erudito e de historiador. Chamamos atenção para a importância que teve porque seria o responsável pela “construção” da História da nação. Seus escritos foram base de pesquisa para outros historiadores que o seguiram, inclusive os autores que estudamos e que foram conhecedores de sua obra e, apesar de tecerem críticas, a utilizaram para escreverem seus textos sobre a Paraíba.

Ainda sobre a relevância que teve, Wehling considera que seus textos também foram fundamentais para a memória nacional fundamentada na moral romântica. Podemos destacar em Varnhagen, algumas características que evidenciam a fundamentação da moral romântica em sua relação com a construção da memória, cujo papel era decisivo, para o autor, numa sociedade ainda colonial e em estado não perfeitamente consolidado (1999, p.69).
           
Odália ressalta que Varnhagen teve uma forte ânsia “de tudo consertar, de tudo prever e projetar, numa confiança ilimitada na capacidade do homem de conduzir sua própria história” (1997, p.32). Diehl entende que ele vive “o momento privilegiado do historiador, que aparecia revestido dos conhecimentos da sublime glória de ser orientador do processo que geraria a noção de nação” (1998, p.47). O eixo do seu esforço intelectual era, enfim, realizar na prática, aquilo que fora definido como o objetivo maior do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, a construção de uma história da “nação” brasileira, o que foi realizado através da obra História Geral do Brasil, publicada entre 1854 e 1857. 

Um dos pontos momentos-chave nessa trajetória, segundo Varnhagen, teria sido aquele das lutas separatistas contra os holandeses que se constituíram como a matriz essencial da formação da nossa identidade nacional, especialmente porque, naquele momento, ocorreu a união das três raças (brancos, negros e índios) na tentativa de expulsarem os invasores. Esta seria a idéia-chave da nacionalidade brasileira que, como já vimos, também estava presente no projeto de Martius. Para Varnhagen, no entanto, o processo dessa formação expressa a superioridade dos brancos europeus, ou seja, “as linhas da nova Nação são legadas e determinadas por uma civilização superior” (ODÁLIA, 1998, p. 45).

Segundo Francisco Iglesias, diante da situação política então vigente, compreende-se que os traços mais notáveis da posição teórica do IHGB fossem:

O pragmatismo da história e o gosto da pesquisa. Pretende-se fazer uma história que tenha função pedagógica, orientadora dos novos para o patriotismo, com base no modelo dos antepassados. É o velho conceito de história como a mestra da vida que se cultua. Daí certa insistência em biografias de vultos tidos como exemplares (2000, p.61).

Esta preocupação pelo viés nacionalista segue uma tradição que, como já dissemos, estava sendo amplamente difundida na Europa. Os temas nacionais eram questões que, naquele momento, também mobilizavam os centros europeus. Uma vez tida em mente que a preocupação central era com a justificação da existência do Estado nacional brasileiro, o delineamento da nação brasileira passou a ser o cerne de debates durante as reuniões na instituição carioca e sua fundação e posterior desenvolvimento condizem com a viabilidade de tal projeto.

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