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A história didática da Paraíba na visão da professora Vilma dos Santos


Imagem da 'Guerra de Princesa'


Vilma dos Santos Cardoso Monteiro teve seu livro, Pequena História da Paraíba, publicado em 1975, exatos setenta anos após a fundação do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano. A edição se inicia com a apresentação de uma série de trabalhos publicados pela autora totalizando onze produções. A edição é apresentada ao leitor, em três páginas, com o título “Como se fosse um prefácio”, escrito por Iveraldo Lucena da Costa. O mesmo afirma que não pretende elaborar um prefácio, prefere utilizar o termo depoimento, devido à forte vinculação que teve com a autora, pois fora seu orientando na Universidade Federal da Paraíba e um grande admirador de suas atitudes e de sua personalidade. Dá um grande destaque aos estudos que a mesma realizou sobre a história da Paraíba, em especial, ao trabalho dedicado à Fortaleza de Santa Catarina. Assim diz: “tudo o que fosse relacionado com a Paraíba era de seu interesse; pesquisou e estudou aspectos de nossa história dos primeiros tempos e ajudou a fazer a contemporânea” (p.11). Ainda nos dá uma informação muito importante, a de que Vilma Monteiro falecera quando escrevia essa obra, a Pequena História, que ela acreditava que se transformaria em um manual de referência para os estudos da Paraíba, mas que não chegou a ver acabado. Lucena fala dos detalhes que compartilhou com a autora, aborda as emoções da mesma e seu entusiasmo com a escrita do livro: “conhecíamos em detalhes, a motivação e o plano da obra... [Vilma] tomou a si, sem encomenda, a tarefa de escrever um livro em linguagem simples, objetiva e o mais completo possível” (p.11).

De acordo com Lucena, embora o livro não tivesse sido concluído, isso não era um impedimento para a leitura e compreensão do mesmo, nem para o reconhecimento da sua contribuição para a história da Paraíba, pois a sua qualidade era inegável. Para ele, um dos pontos fortes da obra era justamente o seu didatismo: “além do valor intrínseco da informação histórica, a forma didática de sua elaboração concede-lhe especial interesse e importância” (p.12).

Uma questão importante para a qual chama a atenção é o fato do livro não possuir gravuras, gráficos, apêndices, justamente porque ela não conseguira concluir o trabalho, mas destaca que a seleção desses materiais estava em andamento. No entanto, após a sua morte, os resultados desse esforço não haviam sido localizados nos arquivos da autora.

Este “Como se fosse um prefácio” é, na verdade, um inventário do carinho e amizade que Iveraldo Lucena da Costa tinha pela autora: “gostaria de não ter sido preciso escrever esse quase prefácio nas circunstâncias em que faço, porém isso me dá a oportunidade de manifestar o meu reconhecimento pessoal” (p.13).

 Em maio de 1979, José Américo de Almeida fez uma apresentação pessoal da obra, que é outra parte interessante da mesma. Sobre Vilma, afirma que: “exercia todos os cargos que lhe foram confiados com firmeza e eficiência” (p.15). O mesmo se julga também grande admirador da autora e da forma como ela conduzia seus trabalhos. Diz que, enquanto governador da Paraíba (1951-1956), teve a oportunidade de trazer importantes nomes para a escala educacional: “entre esses elementos figurou a professora Vilma dos Santos Cardoso Monteiro, cearense que exercia sua profissão em São Paulo, e que se afirmou na Paraíba” (p.15).  E sobre a importância desta obra como livro didático diz: “é sua experiência dessa matéria que professou na nossa Universidade. Se não tem maior fôlego, vale pelo didático como um livro feito para estudantes” (p.16-17). 

Na sua apresentação, a autora aponta que seu esforço pela elaboração de um trabalho didático, a que ela chama de “emergencial” devido à carência deste tipo de materiais na Paraíba, foi bastante grande e que, como se tratava de uma obra desta natureza, procurou não se alongar em notas relativas as fontes (p.21).         
A sua compreensão do que fosse a história “verdadeira”, pautada pela “objetividade”, fica bastante explícita na forma como seleciona e aborda os conteúdos tratados no livro: a causalidade linear, a preocupação com a cronologia, a seleção de eventos em que sobressaem as ações das elites (econômicas e políticas), a reprodução de um panteão de heróis que já fora estabelecido nas primeiras histórias da Paraíba (a de Maximiano Machado e a de Irineu Pinto, além da de Irinêo Joffily, Notas sobre a Parahyba). Por outro lado, assim como Machado constantemente alertará em seu livro escrito no final do século XIX, e sobre o qual trataremos no último capítulo deste trabalho, Vilma Monteiro continua a chamar a atenção para a necessidade de se considerar que a História da Paraíba também é importante para se entender a História do Brasil. Ou seja, que a história da Paraíba deveria se impor e ter seu lugar de relevo na historiografia nacional.

Estruturalmente o livro está divido em dez unidades que exploram a história local, desde a fase pré-colonial até a restauração da ocupação holandesa, e que, por sua morte prematura, não chegou ao fim. Com relação à bibliografia utilizada, ela a aponta ao final de cada capítulo, por meio de notas, citando cronistas como o do Sumário das Armadas, Duarte Coelho, Elias Herckmans, e também, autores clássicos da historiografia e da literatura local e nacional, como: Maximiano Lopes Machado, Irineu Ferreira Pinto, Joaquim Veríssimo, Eduardo Prado, José Alencar, José Antônio Gonsalves de Mello. Utiliza, ainda, o Almanaque do Estado, tratados, dicionários, revistas, além de sua própria obra sobre a Fortaleza de Santa Catarina.

O livro, em todas as partes, vem seguido de um roteiro de aprendizado, uma espécie de resumo no início e no fim do capítulo, que deixa clara a intenção de indicar ao leitor aquilo que é tratado e também aquilo que é considerado mais importante em cada capítulo e que, portanto, deve ser fixado. Começa com uma discussão sobre a Paraíba Pré-Colonial, apoiando-se no papel das populações indígenas, na geografia da Paraíba e passa para a conquista ressaltando que, para a mesma, foram necessários quatro ataques até a rendição final, reforçando a abordagem tantas vezes enfatizada na historiografia paraibana, a partir da obra de Maximiano Machado, que privilegia a bravura, a resistência, a persistência dos homens da terra, tanto os nativos, quanto aqueles que viriam a fundar a Paraíba, os conquistadores. As notas ao fim de cada capítulo são explicativas e com indicações de leitura. Dá uma grande dimensão ao papel econômico que teve o açúcar, desde as suas origens até o momento de sua crise no século XVII, enaltecendo-o como fonte de riqueza e destacando suas regiões mais importantes, bem como a fiscalização por parte da Coroa em torno dele e quais os efeitos que a monocultura sofreu.

Seu livro é escrito com dez unidades sendo, da cinco até a nove, dedicadas ao capítulo das invasões holandesas, como já dissemos. A autora aprofunda aspectos dessa permanência na Paraíba, pois o leque de sua discussão é bem maior que o de Carmem Coelho. Ressalta as tentativas holandesas e a conquista com mais detalhes, caracterizando a administração, a economia e, em seguida, a expulsão. Também não trabalha com a questão cultural, mesmo sabendo da sua importância. Vejamos o que diz: “as únicas heranças válidas dos holandeses, na Paraíba, resumem-se no plano histórico, através de relatórios e outros escritos, que informam sobre os costumes dos índios, os engenhos, as plantas e a geografia urbana e rural” (MONTEIRO, 1975, p.111).

Na quinta unidade apresenta os objetivos da Holanda em relação às terras da Capitania da Paraíba, explicita como se deu a execução dos seus planos e como se formou a direção geral, por meio da Companhia das Índias Ocidentais. Apoiando-se em Irineu Pinto destaca os episódios relacionados à presença da esquadra holandesa na Baía da Traição como um dos momentos importantes da ocupação, embora anterior a ela: “o primeiro contato efetivo que a Paraíba registrou, com os holandeses em guerra com o Brasil, data de 1625, quando uma armada fundeou nas proximidades da Baía da Traição” (p.89). Como se vê, também seguindo Irineu Pinto que afirmara que “[em 1625] fundeia na Bahia da Traição a esquadra hollandeza que deixara a cidade da Bahia, sob o commando do Almirante Bondervyn Hendrikszoon para fazer aguada e apanhar mantimentos” (1977, p.38), Vilma Monteiro não analisa a importância desses acontecimentos para o processo que se seguiu. Trata-se apenas de mais uma data a ser fixada.

A autora traça caminhos bem interessantes, construindo roteiros para deixar mais clara as discussões que vai fazer. De forma bem didática apresenta todo o percurso que antecedeu as invasões até o momento da consolidação final dos ataques, que culminaram em 1634.

Já na unidade seis, o eixo da discussão é o aspecto administrativo. Ela divide esta etapa em seis períodos, que vão de 1630 a 1654, alegando, apoiada em Mário Neme, que sempre houve “carência de autoridade política, conflitos de jurisdição, carência de autoridade moral, predominância do espírito de lucro e deficiência de estrutura jurídico-política” (NEME apud MONTEIRO, p.98). Fala da mudança do nome da cidade para Frederica e da sua libertação em dois de setembro de 1645; tópico, aliás, constante em Pinto e em Machado. Ainda sobre a administração aponta dados relativos à população, aos conventos e ao seu funcionamento, ao papel que teve cada um dos governadores durante os vinte anos da ocupação, e, finalmente, destaca as formas da administração holandesa, baseadas nas câmaras dos escabinos e nos escoltetos.

Na unidade sete aponta para as questões econômicas, mostrando as três “classes”, a dos capitães de comércio, a dos luso-brasileiros e a dos holandeses, demonstrando as fontes de renda com a cultura canavieira e com os dízimos dos rendimentos do açúcar. Fato curioso é que Machado (1977) também chama atenção para esta questão e aponta nas páginas 186 para os gastos com tais rendimentos. Sobre os fatores que interferiram na economia local afirma que as principais foram: “baixa do valor do açúcar, carência de capitais, alto preço do braço escravo, epidemias e inundações e guerrilhas” (p.121). Ainda com relação à economia apresenta dados, e nesta parte também deduzimos que a autora se sustenta nas obras de Machado e Pinto, pois se trata dos mesmos citados pelos autores, como as fontes de renda, os problemas de capital e da produção açucareira. A diferença é que ela os apresenta sob a forma de quadro e por anos, organizadamente.

A unidade dedicada às lutas de libertação é a mais forte de seu texto, porque traça esquemas que resumem todo o processo, como os fatores que levam à sua eclosão, a posição de Portugal, as principais vitórias da insurreição, os líderes.

Na unidade nove, tal como em Carmem Coelho, faz todo um discurso de apologia à figura de André Vidal de Negreiros, como sendo o herói da restauração. Confirmando sua vinculação com os ideais do IHGP, enaltece este herói, além de João Fernandes Vieira, Francisco Barreto, Antonio Filipe Camarão, Henrique Dias, Martins Soares Moreno, Antonio Dias Cardoso e Francisco Figueiroa (p.127). Particularmente, no caso de André Vidal, na unidade que o discute, menciona as fontes, entre elas, Vanhargen, Southey e Frei Manuel Calado usando citações dos mesmos que expressam a sua heroificação.

Ao fim e ao cabo, as duas autoras têm muita coisa em comum, como a utilização das fontes de Maximiano Lopes Machado e Irineu Ferreira Pinto, além de mapearem e escreverem livros que buscavam se firmar como guias didáticos para serem seguidos e também por exaltarem a idéia de que haviam produzido a história “verdadeira” da Paraíba. Também têm em comum, como já afirmamos, o fato de terem sido contemporâneas, vivendo e escrevendo na época da ditadura, como sócias do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano. De fato, cada uma, mesmo com tanto em comum, também teve suas peculiaridades. Por exemplo, Vilma Monteiro, professora universitária, com formação específica em História, aprofunda mais os seus textos, explicita as fontes, preocupa-se com a cronologia, procura construir instrumentos didáticos como os “resumos” que antecedem e concluem cada capítulo. 

Trata-se de obras importantes da historiografia didática da década de 1970 na Paraíba, até porque foram as únicas a serem escritas à época. Ou seja, o lugar social a que foram vinculadas diz muito sobre a maneira como escreveram seus livros, já que foram sócias do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano. Além disso, a história de vida de ambas, o clima da época em que produziram, a década de 1970 sobre a qual já tecemos detalhes, marcada pela censura e pelo autoritarismo, se expressam claramente em suas obras.

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