Fatos históricos, políticos, econômicos e sociais. A História, relida e recontada.

Evolução da História em expansão: a historiografia



Os estudos de historiografia começaram a ser pensados desde a Idade Antiga com as obras de Heródoto e Tucídides que, segundo Silva “não chegaram a legar reflexões sobre sua prática de historiadores. Procuravam expressar o que chamavam de “verdade” tal como a concebiam, estabelecendo de uma certa forma uma cumplicidade com seus leitores”. (2001, p.28).

Aristóteles e Políbio também foram influentes nessa expansão dos estudos de historiografia, já que o primeiro acreditava que a história descrevia algo que, de fato, estava acontecendo, enquanto que o segundo concentrou-se mais em legar registros com preocupações historiográficas. Durante a Idade Média, é importante destacar que os empenhos historiográficos ficaram circunscritos ao interior das igrejas devido ao controle do saber que exercerá, nesta época, a Igreja Católica. Este modelo de historiografia tratou, por sua vez, de se preocupar mais com as questões ligadas à procedência, à cronologia e à interpretação. Uma outra questão sobre este período pode ser verificada desde que “os historiadores do período, via de regra, pertencem ao clero, muitos ocupam postos de destaque na hierarquia da Igreja e é notável nestas produções a virtual ausência de distinção entre “história profana” e “história sagrada”. (SILVA, 2001, p. 36).

Não podemos deixar de relacionar a importância dos autores da historiografia renascentista e da Reforma Protestante que trouxeram novas ampliações de investigações, bem como do ofício do historiador. Ainda neste período, e até o século XVIII, os estudos historiográficos estavam baseados em listas de títulos e autores por ordem cronológica segundo as publicações.

Ocorre que a concepção moderna de historiografia ultrapassa esta visão e é interessante relacionar que tal discussão vá mais além, que rompa com este velho estágio de prática intelectual, e que busque uma maior versatilidade na maneira de interpretar o conhecimento histórico. Assim nos diz Cordeiro Junior: “o conceito e a prática da historiografia devem ser orientados sempre de modo a reforçar o sentido da elaboração de uma história da história” (in: SÁ e MARIANO, 2003, p.21). Dessa forma, toda esta evolução nos leva a refletir acerca do que é esta história da história? Ou seja, é o caso de destacar que se trata de um amplo processo de acúmulo de pesquisas, estudos, contribuições ao longo do tempo. O trabalho dos historiadores vai, assim, se constituindo e sendo pensado, em diferentes momentos, como reconstruções/discursos/explicações da realidade. 

Mas, na verdade, foi no século XX que esta discussão ganhou maior destaque, porque através da evolução da prática do fazer história, muitos historiadores deixaram de compreender a historiografia a partir da perspectiva de que se trata de um exercício para catalogar as fontes, e, sim, como forma de retificar diferentes fontes de interpretação do passado histórico, sendo-lhe inerente, portanto, a busca pela criticidade. É certo, no entanto, que muitos ainda permaneceram presos aos dados e à cronologia e esqueceram de buscar entender a operação histórica. Portanto, hoje afirmamos que “uma análise historiográfica, além de elementos empíricos, metodológicos, ideológicos, sociais que revele, pode ser útil como “objeto de investigação” para o estudo da construção de um saber histórico” (WEHLING. In: MALERBA, 2006, p.17). Dessa forma, a história da história nos permite fazer reflexões acerca do processo histórico e de sua temporalidade.

Falar em historiografia é, sem dúvida, reiterar que a mesma seja responsável por uma representação do passado, pois ainda que o mesmo esteja distante de nós, é possível de ser compreendido, e, além disso, como diz Malerba “a exatidão é um dever moral dos historiadores” (2006. p. 16).  A história é, também, a arte de contar algo a alguém, em algum lugar, num determinado tempo. É importante lembrar que a idéia de tempo, na história, requer uma noção conceitual, mais voltado para a teoria, e instrumental ligada à metodologia Para os historiadores trata-se de um fator essencial porque, mesmo a cronologia mais convencional, é fundamental para que os fatos possam ser encadeados. É como se a linha do tempo fosse a base para as nossas atividades. Além disso, e fundamentalmente, há que considerar que, no conhecimento histórico, uma obra não atinge a perfeição, pois se escreve para uma época e em uma época. Assim, o exercício da crítica deve ser uma atividade constante do historiador.

O século XX proporcionou alterações quanto ao objeto de estudo e a metodologia, ou seja, as transformações ocorridas na escrita da história, que é a maneira individual de como cada um irá produzir o seu texto. Cada historiador tem seu estilo próprio e privilegia determinados elementos e conteúdos em seus textos. Para o modelo de escrita chamado de tradicional, que se baseia no factual, na política em sentido estreito, na descrição, na cronologia e na causalidade basta organizar aquilo que já está pronto, mas que é confuso; já, para aqueles que se preocuparam em analisar os acontecimentos, ao invés de fazer encadeamentos de fatos é necessário problematizar os mesmos não permitindo que o passado se confunda com o presente. É preciso utilizar aquilo que foi proposto por Certeau, ou seja, completar a operação histórica.

O saber historiográfico é, portanto, um saber que é escrito e que se caracteriza pela pretensão de se tornar ‘verdadeiro’, porque quem elabora as “visões” desse saber acaba por enveredar, nos seus discursos, sempre pela idéia de “verdade”. No entanto, esta perspectiva não é pacífica. Entre os historiadores e outros pensadores das ciências humanas e sociais há aqueles que não reconhecem o estatuto de veracidade do conhecimento histórico. Este o caso do crítico literário Hayden White e também do historiador Paul Veyne. O primeiro afirma que os historiadores não têm um estilo próprio, e que a representação do fenômeno histórico será relativa quando considerar a linguagem como forma de descrever e construir os eventos do passado. Para ele, os historiadores não devem se preocupar com a verdade dos fatos, mas buscar compreender como ela é construída, a partir de um estilo de escrita. Veyne, por sua vez, considera a história uma arte que tem fundamento na Literatura. Segundo ele, quando o historiador se aprofunda em um estudo, na verdade o que ele quer é envolver o leitor. Trabalha com a idéia de que o texto produzido pelo historiador é, na verdade, fruto de sua imaginação, que não é falsa, mas que é criada por ele, pois considera que o real nunca poderá ser captado pelo historiador. Quando o mesmo imaginar ter encontrado o real, na verdade este não passou a ser mais do que um vestígio. Dessa forma, a história é uma arte ligada à capacidade de expor um raciocínio e que, por isso, se assemelha com à retórica.

Contrariando as posições acima, Daniel de Souza afirma que “a história e as outras disciplinas buscam a verdade a partir de um processo elaborado de organização que identifica um método e uma metodologia” (SOUZA, 1982, p. 212). 

Enfim, adotamos a perspectiva que considera a historiografia como produto de um tempo. Produto esse que, ao ser analisado, revela não apenas os procedimentos da operação realizada pelos historiadores que o produziram, mas também revela a sociedade em que tais historiadores viviam. Portanto, consideramos que há, na obra dos historiadores, uma relação estabelecida com a “verdade” possível sobre uma sociedade, em um tempo passado determinado.  Por esta razão, reafirmamos a posição de Carbonell: “a historiografia é um produto da história e revela com clareza a sociedade que a gerou” (In: MALERBA, 2006, p.21). É nessa perspectiva que nos aproximaremos das obras dos autores que já o apresentamos a vocês em artigos passados: Maximiano Lopes Machado e Irineu Ferreira Pinto.

Maximiano Lopes Machado, em sua História da Província da Paraíba (1977), opta por narrar a história da Paraíba desde a colonização portuguesa ainda no século XVI, passando pelo período das invasões holandesas, pela política do Marquês de Pombal no século XVIII e pelos movimentos liberais do século XIX, com especial destaque para a Revolta Praieira, entre muitos outros acontecimentos que julgava relevantes. Ocupava um cargo no IAHGP (Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano) de onde recebeu influências para escrever a “história da Paraíba”. Viveu à época da Revolução Praieira, da qual foi grande simpatizante, o que o levou a escrever um outro livro: Quadro da Revolta Praiera na Província da Paraíba (1851), fazendo, nesta obra, uma descrição das ocorrências do movimento praiero na Paraíba, ressaltando os motivos principais que levaram à revolta. Para escrevê-lo, usou vários documentos da História Geral do Brasil (1854) de Varnhagen, que lhe deu o suporte para escrever o perfil da história da Paraíba no período colonial.

Já Irineu Pinto faz da sua obra aquilo que os antigos faziam, ou seja, funda uma cronologia para história paraibana, temendo que os documentos se evadissem com o tempo. Publicou sua obra em dois volumes. O primeiro cobre os acontecimentos que e vão de 1501 a 1820, enquanto que o segundo de 1821 a 1862. A estes modelos de historiografia Rusen afirma serem “parte integrante da pesquisa histórica, cujos resultados se enunciam, pois na forma de um saber redigido” (In: MALERBA: 2006 p.23).

Pesquisas recentes falam muito na construção de uma história da historiografia. Estudos como os de Rogério Forastieri da Silva (2001), H. W. Blanke (2006), em A História Escrita organizada por Jurandir Malerba, entre outros, dedicam-se a essas discussões revelando os propósitos, os empenhos historiográficos, os tipos e as funções dessa história da história, ou seja, tratam da historiografia em geral, bem como da sua diversidade e dos múltiplos enfoques que lhe são aplicados.

Silva cita que os estudos de Eduard Fuert constituíram-se como trabalho pioneiro desta área. Ele se propunha a analisar os historiadores e suas obras a partir da construção do Estado Nacional, usando vários critérios de periodização da história da historiografia, e trabalhando com a história intelectual ou das idéias. Embora se voltasse aos modelos arcaicos assentados na construção de longas listagens, tratava-se de um estudo pioneiro.

Por sua vez, Blanke (2006) aponta os vários tipos de construção dessa história da historiografia, em que revela ser possível se fazer a construção da história dos historiadores, ou seja, do retrato pessoal, das biografias; das obras, como uma história ligada mais à Literatura; das idéias históricas que revelam uma indicação da história intelectual; da história social dos historiadores ou da história da historiografia como história social e, por fim, da história da historiografia teoricamente orientada, que seria uma tentativa de entender como a disciplina se desenvolve no interior de uma discussão metateórica, que é uma análise mais complexa “e que pode localizar e resgatar projetos fracassados” (In: MALERBA, 2006, p.32)

Ele ainda destaca e ressalta ser possível atribuir a essa construção duas funções: a crítica e a afirmativa, como modelo de uma reconstrução. Na primeira, é interessante fazer uma investigação dos modelos tradicionais para operar mesmo a crítica, ou seja, buscar fundamentos que dêem sustentação ao que os historiadores se dedicarem a escrever, e consequentemente, criticar. Já na função afirmativa entender as ideologias é um aspecto importante de como se dará a reconstrução histórica. Mediante esses questionamentos, a historiografia seria “a história do discurso - um discurso escrito e que afirme verdadeiro - que os homens têm sustentado sobre seu passado” (CARBONELL, 1992, p.6).

Pensando a historiografia como história social, que é uma das possibilidades mencionadas por Rusen (2006, p.32), é importante destacar que nesta perspectiva ela tenda a uma reflexão e uma compreensão mais fluida, porque será elaborado um saber voltado para as ações humanas no passado e como serão contadas tais ações. Percebe-se que, nesse modelo de campo de conhecimento, existe uma maior dificuldade no trabalho historiográfico, mas que não deixa de ser interessante e fomentador, até pela gama de discussões e questionamentos feitos pela História Social e os possíveis diálogos que este campo possa vir a fazer com este outro que, como já nos referimos, está em ascensão.

Ainda sobre esta concepção da construção de uma história da historiografia, uma questão é bastante pertinente à valorização dos métodos empregados pelos historiadores. Neste contexto, Mastrogregori nos apresenta uma diversidade deles, que vão desde o método bibliográfico, até o mais erudito (mais rebuscado), filosófico, científico.

2 comentários:

  1. Poxa, como é gostoso de ler. Quanta clareza e concatenação das ideias. Não conseguiria escrever assim tão bem! Hérick, parabéns!

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  2. Nosso presente nessa vida e conhecer pessoas com dons tão lindo parabéns, pelo texto. ABRAÇO HÉRICK

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