Fatos históricos, políticos, econômicos e sociais. A História, relida e recontada.

Bibliotecas como lugares de memória


Biblioteca de Alexandria, Egito 

Reavivando uma nova discussão que é bem silenciada, e após o longo debate sobre os vários usos da informação nas ciências, começamos desde o artigo da semana passada a discutir o papel da Biblioteconomia e das bibliotecas dentro do universo da ciência da informação. Tais discussões estão sendo cerceadas pelo fato da minha segunda formação ser em Biblioteconomia e me sentir a vontade nesse ramo tão pouco conhecido dos leitores.

  
A discussão de que as bibliotecas remontam a um passado longínquo já não são mais novidades para ninguém. Elas foram por muito tempo as guardiãs dos saberes da humanidade, que por sua vez estão perpetuados pelo tempo, seja nos livros, nas mídias e nas sociedades. A sociedade da informação, do conhecimento e\ou da aprendizagem é responsável por esta dinâmica de estudar como estes espaços – as bibliotecas - se tornaram e fixaram como lugares de memória.
  
O estudo da memória é bem inerente ao conhecimento histórico. Os historiadores pesquisam a fundo sobre esta temática para tentarem mapear e separar o que é história do que é memória. Nos dias de hoje, se fossemos levantar este debate no seio do senso comum, teríamos respostas infindas sobre o que é memória. O que se sabe é que para a historiografia e para o conhecimento ela tem pressupostos relevantes e essenciais para a compreensão dos fatos do passado.
  
Com base nas indagações acima, concordamos com a seguinte preposição de que a memória tornou-se um dos principais elementos para entender o mundo social, pois nos possibilita saber quem somos, integrando nosso presente ao nosso passado. (ARARIPE, 2001, p. 71).
  
No entanto, com as bibliotecas também não são diferentes. Elas são ao fim e ao cabo lugares de memória. Memórias das mais variadas e dos vários campos dos saberes. Lá se encontram informações pertinentes para o universo de milhares de estudiosos de muitos espaços organizacionais: universidades, escolas, organizações e etc.
  
Levando em consideração a preposição de que os lugares de memória estão ligados a acontecimentos e personagens, podemos dizer que a biblioteca é um desses lugares, que são sempre construídos e que não aparecem de maneira espontânea. São construídos porque buscam a preocupação com os momentos, com a coletividade, com a identidade cultural, que para Ramos (2000) é um conjunto vivo de relações sociais e patrimônios simbólicos historicamente compartilhados que estabelece a comunhão de determinados valores entre os membros de uma sociedade. Sendo um conceito de trânsito intenso e tamanha complexidade, podemos compreender a constituição de uma identidade em manifestações que podem envolver um amplo número de situações que vão desde a fala até a participação em certos eventos.
  
Esta por sua vez se faz a partir da memória, que está atrelada a um passado, as tradições, a história dos países, cidades e comunidades. É nesta forma de memória que o conhecimento humano se perpetua como construtor de um ser social ativo, participativo e que tenha por fim sua identidade cultural. Assim sendo, estudar a memória coletiva implica olhar os acontecimentos e as interpretações do passado que se deseja guardar e apresentar, como forma de reforçar sentimentos de pertença e de fronteiras entre diferentes grupos sociais, partidos políticos, igrejas, sindicatos, regiões, famílias, nações e etc. (ARARIPE, 2001, p. 72)
  
Desta forma, percebemos que um dos papéis das bibliotecas como lugares de memória é bem este de assegurar condições de pesquisa e de conhecimento para aqueles que a procuram, sejam grupos, instituições e\ou usuários comuns.
  
Uma característica bem intrínseca das bibliotecas enquanto espaços de memória tem bastante relação com coletividade, pois a memória coletiva é uma construção organizada e não apenas uma conquista, mas também são mecanismos de poder, pois a partir dessa interação é possível se pensar melhor a sociedade, as lutas sociais e etc. Toda essa gama de informações pertinentes a luta coletiva estão arraigadas no seio das bibliotecas, elevando-as ao patamar de lugares privilegiados de memória.
  
A biblioteca também é um lugar de memória plural de inúmeras contribuições, ou seja, é patrimônio arquitetônico, guardam as datas, as passagens, os personagens históricos, as simbologias, a musicalidade. É, portanto, construtora de uma identidade, seja nacional, regional, local e etc. Sendo assim, na biblioteca, a memória se apresenta de duas maneiras: primeiramente no que diz respeito ao especificamente material: as formas arquitetônicas dos seus prédios e a forma física dos materiais ali guardados e segundo, no que se refere aos conteúdos dos materiais ali organizados que dizem respeito a pensamentos e caminhos (Op. Cit, 2001, p. 74)
  
No entanto, este espaço é um lugar típico de memória, seja individual, seja coletiva. São lugares que podem ser considerados como patrimônio cultural de um determinado grupo quando, alguma forma, ajudam a formar a sua identidade por fazerem parte da sua memória. Muitas vezes, pensamos que estes lugares podem ter se tornado lugares de memória por acaso, já em outros casos a intenção de conscientização influente na formação da memória das pessoas a partir da construção de monumentos.
  
Por fim, entendemos que não são apenas as edificações que fazem parte do patrimônio cultural de uma sociedade. Saberes, técnicas e lugares também podem compor o patrimônio cultural e a memória de lugares, de indivíduos, grupos sociais diferentes.


2 comentários:

  1. Rico em informação. Bem escrito. Leitura agradável. Um escritor de mão cheia. Parabéns, Menesinhos!!

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  2. Que belo olhar sobre este assunto, do nosso contemporâneo

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