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O LUGAR SOCIAL: Maximiano Lopes Machado e Irineu Pinto, vidas e obras







O conceito de Certeau sobre “lugar social”, como já dissemos, é bastante interessante para compreendermos a maneira como Machado e Pinto elaboraram seus textos. Além disso, para Certeau, a operação historiográfica é bastante complexa, e não percebemos, nos dois autores , a sua integralização plena, completa.

Sabendo que tais considerações serão importantes no desenvolvimento do nosso texto, apresentaremos agora alguns elementos biográficos dos nossos autores.  Não é a nossa pretensão, como já foi dito, elaborar uma biografia dos mesmos, mas ressaltar um pouco da trajetória que tiveram, até porque, no dizer de Francisco Sales Gaudêncio,

toda biografia a rigor, é uma interpretação, uma tentativa. Nesse mister, o historiador depende da sua própria capacidade de reconstrução, de sua vigilância sobre valores e juízos e, com isso, sua responsabilidade cresce. (2007, p.35).


Maximiano Lopes Machado

Tido como um dos mais representativos historiadores paraibanos, numa visão enfatizada pelo Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, muito embora não tendo formação para tal,  Maximiano Lopes Machado nasceu na capital da Província da Paraíba do Norte, em 7 de agosto de 1821 e faleceu em 11 de fevereiro de 1895, no Recife. Foi diplomado como bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, nomeado promotor público de Olinda e, depois, juiz municipal de Areia, sendo deputado provincial. Viveu à época da Revolução Praieira, da qual foi grande simpatizante, e que o levou a escrever o seu livro Quadro da Revolta Praiera na Província da Paraíba (1851), fazendo nesta obra um trabalho de narrativa das ocorrências do movimento praiero.  Foi membro do Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano, de onde partiu a inspiração e o interesse necessários para a escrita da sua História da Província da Paraíba.

Este livro, sua principal obra, é bastante extenso e norteia discussões sobre vários aspectos do período colonial, entre os quais o período do domínio holandês na Paraíba. Para escrevê-lo, usou vários documentos da História Geral do Brasil (1854) de Varnhagen, que lhe deu o suporte para escrever o perfil da história da Paraíba no período colonial. É justamente entre os capítulos seis e doze que o autor faz as suas observações sobre as invasões holandesas na Paraíba. Percebemos, nessa obra, uma forte tendência do mesmo aos ideais dos metódicos, por exaltar a colonização portuguesa e alguns nomes, por exemplo, André Vidal de Negreiros, que é tido por ele como “ilustre”, “herói”. Ou seja, em sua obra estão presentes a personificação e a heroificação típicas da escola metódica.

Esta obra, na parte que trata da ocupação holandesa nas terras paraibanas (1634-1654), só foi editada oficialmente em 1912 e republicada, em 1977, pela editora da Universidade Federal da Paraíba.

Irineu Ferreira Pinto

Com relação a Irineu Pinto, o mesmo nasceu na cidade da Parayba do Norte, hoje João Pessoa, em 7 de abril de 1881 e faleceu em 27 de março de 1918. Filho de Bernardina Pereira de Alencar e de Francisco Ferreira Pinto. Iniciou seus estudos em Barreiras, atual cidade de Bayeux, onde fora morar em virtude do falecimento do pai e de um novo casamento de sua mãe que não agradou aos familiares. Depois estudou no Lyceu que, na época, era o principal colégio da Paraíba. Não fez nenhum curso superior, muito embora seja mencionada por seus biógrafos a vontade do mesmo em cursar Direito, mas em virtude de uma situação financeira não muito boa, a mesma acabou não se realizando. Porém, recebeu, como herança intelectual, as influências do século XIX, ou seja, o romantismo, os ideais do nativismo.  Piragibe Pinto destaca que o mesmo era um jovem divertido e namorador, que era simpático a escrever textos para as moças que conhecia. Casou-se com Marcionila Augusta de Figueredo, em 1905, e, desta relação, teve três filhos, inclusive Piragibe, que se formou em Medicina e construiu uma biografia do pai, publicada em comemoração ao centenário do seu nascimento. Aliás, prática bem típica do IHGP essa de demarcar datas comemorativas para “celebrar” outras datas julgadas importantes.

Irineu Pinto publicou sua obra em 2 volumes. Foi funcionário público da Secretaria do Estado, depois dos Correios da República, sendo sócio fundador do IHGP, e também, seu primeiro bibliotecário e secretário. Verificamos que, em sua obra, não há interpretação, nem operação analítica, ou seja, não se completa o processo historiográfico. Ele a periodiza por séculos e anos, utilizando vários documentos de Varnhagen, e também citando a obra de Machado.

Com relação ao período holandês, que será foco de nossa atenção futura, trabalha sobre ele de forma cronológica, ou seja, narrando os fatos por datas que vão de 1634 a 1654, e nelas “contando a história” desse período. Desta forma, “escreve-se história com documentos”, conforme entendiam os metódicos e Pinto faz o mesmo percurso. Assim diz Napolitano, “A História nasce como técnica de busca de fatos nas “pistas” ou nos “testemunhos” fornecidos pelos documentos de época, ou seja, aqueles que foram produzidos dentro da periodização estudada pelo pesquisador”.

Irineu Pinto é um dos escritores da vertente da historiografia que predominou na Paraíba durante boa parte do século XX, principalmente no que diz respeito às suas datas e notas. Escreveu crônicas, sonetos e trovas para os jornais locais, muito embora não tenha se tornado um jornalista, como seria de se imaginar. A maior parte de sua vida está inserida na época do Brasil republicano, para ser mais exato à época do que a historiografia chamou de “República Velha, Oligárquica, ou do café-com-leite” (1889-1930); fase esta marcada pela política dos governadores, arquitetada durante o governo do presidente Campos Sales (1898-1902), em que as esferas do poder executivo, estaduais e municipais firmavam bases políticas para assegurarem e cristalizarem o poder nas mãos das mesmas oligarquias em detrimento dos opositores.

Irineu Ferreira Pinto faleceu aos 37 anos, e sua morte causou uma comoção entre os intelectuais da capital paraibana e mereceu do IHGP uma sessão solene em sua homenagem. Durante sua vida, batalhou pela elaboração de uma história da Paraíba, materializando as suas conquistas dentro do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano e nas suas revistas, como também na produção de Datas e notas para história da Paraíba, que teve dois volumes conforme já citamos acima.  O primeiro cobre os acontecimentos que e vão de 1501 a 1820,  enquanto que o segundo de 1821 a 1862. Os volumes foram lançados respectivamente nos anos de 1908 e 1916 e reproduzidos, também em 1977, pela editora da Universidade Federal da Paraíba. Os livros têm o intuito de aglutinar uma exaustiva quantidade de informações/documentos relativos à Paraíba, apanhados, segundo seu autor, nos arquivos deste Estado, muito embora não mencione quais fossem.

Na construção da sua história, ele a faz com base na transcrição de documentos oficiais, enfatizando as classes dominantes, trata-se de uma ampla documentação que se circunscreve à elite. Como exemplo, pode ser destacada a imensa documentação referente aos cargos e às comendas. Suas escolhas, enquanto historiador, o levaram para determinados acontecimentos e personagens que serão recorrentes na historiografia paraibana a partir de então.

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