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Cultura: um termo complexo e polissêmico



Pensar, fazer, escrever e/ou definir o que seja cultura não é nada fácil, pois se trata de uma palavra preeminentemente complexa e polissêmica. Vários autores, em vários campos do conhecimento, ao longo dos anos, vêm buscando, com dificuldade, encontrar um conceito mais geral, tendo em vista a gama de questões que a ele se remontam e a complexidade que existe nas próprias sociedades.

Existem muitos leques para tal discussão, porém, procuraremos, ao longo deste artigo, discutir algumas visões de cultura

Iniciaremos tentando mapear a polissemia do termo cultura. Em tempos de globalização e pós-modernidade, muito tem se discutido sobre isto. Terry Eagleton (2005) aponta que “cultura é considerada uma das duas ou três palavras mais complexas de nossa língua” (2005, p.9). Etimológica trata-se de palavra que se derivou da natureza, relacionado aos termos “lavoura” ou “cultivo agrícola” (2005, p.9). Mas ela não é só isso e é necessário que regras sejam cumpridas, ou seja, aquilo do que venha a ser regulado e não regulado pelas suas expressividades. Nesta perspectiva, percebemos que dentro da própria visão deste autor o termo é mesmo multifacetado, porque nos apresentam várias conformações que a mesma possa inventariar. Nesta mesma direção, a cultura ainda pode nos proporcionar um efeito de auto-superação e/ou auto-realização. Isto é bem interessante porque vários povos em várias sociedades vencem barreiras, superam desafios e se realizam produzindo cultura.

Uma versão forte na idéia de Eagleton está na reflexão acerca do entendimento que Raymond Williams tem sobre cultura e sobre o que investigou, que é a discussão em torno da mesma ter um sentido frente à palavra civilidade e depois civilização. Este embate gerou muitas discussões entre os franceses e alemães.

Ainda diz que a versão romântica dela “evoluiu com o passar do tempo para uma versão científica” (2005, p. 44). Tal visão romântica é possível de ser identificada nas obras dos autores que iremos analisar em nossa dissertação, tendo em vista que os mesmos sofreram influências do romantismo do século XIX, e justamente nesse século houve uma guinada em relação às discussões a que este termo remonta, assim como vários outros, já que o mesmo foi o século da cientificidade, em que as explicações da realidade deveriam agora seguir e encontrar seus padrões científicos. Mediante todo esse embate Terry Eagleaton percebe a cultura como sendo uma afirmação tanto da pré, como da pós-modernidade.

O pós-modernismo também suscita uma série de discussões sobre o lugar da cultura. Jameson (1997) diz que ele – o pós-modernismo - se apresenta como tendo um dominante cultural, mas que também é paradoxal afirmar que tudo seja pós-moderno. Fundamenta suas idéias afirmando que a produção cultural na fase do capitalismo tardio apresenta algumas características, entre elas, a falta de profundidade e o aparecimento de um novo tipo de superficialidade no sentido mais literal, o que é talvez a mais importante característica formal de todos os pós-modernos. Uma outra característica é o desaparecimento do sujeito individual, ou seja, uma expressividade da cultura que agora se tornou global. Uma outra questão é sobre a inferência que nós mesmos, os seres humanos que estão nesse espaço não acompanharmos a evolução da mesma, sendo necessário a construção de novos espaços, de um “hiperespaço”, “e isso se deve, em parte, ao fato de que já nossos hábitos perceptíveis foram formados naquele tipo de espaço mais antigo a que chamarei espaço do alto modernismo” (2005, p. 64). Por fim, segundo a tese de Jameson, a cultura tornou-se uma mercadoria, e essa é a expressão maior da confusão espacial/social em que vivemos.

Todo este debate acerca do pós-moderno é para que fique claro que as discussões em torno de cultura ficaram cada vez mais complexas, mais globais, e que, mesmo analisando produções do século XIX, o gancho com o presente é um caminho inevitável, afinal o conhecimento histórico é resultado das nossas indagações sobre o presente e do presente sobre o passado. Boaventura de Sousa Santos (2002) também dá destaque à cultura que, segundo ele, é global e é um projeto primordial da modernidade em que o Estado-Nação provocou o esmagamento da “rica variedade de culturas locais existentes no território nacional” (2002, p. 48). A preocupação preeminente deste autor não está em fazer o percurso de Jameson, que foi o de entender a cultura e sua relação com o capitalismo tardio, e sim, buscar entender como a mesma se articulou dentro dos processos do mundo globalizado, ou seja, se a mesma é uma questão nova ou velha, por exemplo. Pensa ainda a globalização como sendo cultural e como ela se comportou frente à virada cultural da década de oitenta, ou seja, a mudança que as discussões ganharam em torno não mais da problemática socioeconômica, mas da questão cultural.

Estas são algumas das visões que este termo híbrido denota e que se aprofundado com intensidade gera um debate extremamente acalorado, em virtude das diferenças de pensamento e das questões que o envolvem.

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